A vigília angustiada e o sono de fuga: insônia e narcolepsia como metáforas da condição humana na literatura italiana

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18175836

Palavras-chave:

Literatura Italiana, Distúrbios do Sono, Condição Humana, Metáfora Existencial, Subjetividade

Resumo

Este artigo examina as representações da insônia e da narcolepsia na literatura italiana, propondo que estas condições transcendem o âmbito patológico para se constituírem como operadores metafísicos fundamentais na investigação da condição humana. A justificativa repousa na capacidade singular desta tradição literária de transfigurar sintomas clínicos em categorias existenciais, evidenciando um diagnóstico profundo das crises do sujeito moderno. O objetivo central é decifrar como a impossibilidade de dormir e a impossibilidade de permanecer acordado configuram eixos narrativos que articulam o tédio, a alienação, o trauma e a dissolução identitária. A metodologia articula uma análise textual close reading de um corpus que inclui Dante Alighieri, Italo Svevo, Luigi Pirandello e Dino Buzzati, com um diálogo interdisciplinar que mobiliza conceitos da filosofia e da fenomenologia da existência. O arcabouço teórico fundamenta-se na ideia de que a literatura opera uma forma singular de conhecimento sobre a vulnerabilidade humana. Os resultados demonstram que a insônia figura como uma consciência penalizada pela lucidez, enquanto a narcolepsia se manifesta como uma abdicação involuntária da presença no mundo.

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Publicado

2026-01-07

Como Citar

Moraes, I. T. S., & Casini, M. C. (2026). A vigília angustiada e o sono de fuga: insônia e narcolepsia como metáforas da condição humana na literatura italiana: . Revista OWL (OWL Journal) - REVISTA INTERDISCIPLINAR DE ENSINO E EDUCAÇÃO, 4(1), 1–19. https://doi.org/10.5281/zenodo.18175836